...
"Não tenho medo. Não tenho medo de nada. Quanto mais eu sofro, mais eu amo. O perigo só fará crescer meu amor. Ele o afiará, perdoará o preconceito. Serei o único anjo de que você precisa. Você dexará a vida ainda mais bonita do que quando entrou. O céu a levará de volta, olhará para você e dirá: 'Somente uma coisa pode nos completar'. E essa coisa é o amor."
...
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
domingo, 20 de setembro de 2009
Querido Diário,
Faz tempo que não escrevo, não? As coisas andam bem. Bem diferentes. A Faculdade anda tirando um tempo enorme do meu sono e do meu dia-a-dia. Mas descobri o que me fez feliz. As aulas me motivam e toda aquela atmosfera subjetiva me fascina. É o meu lugar. O meu canto. Um universo novo cheio de pequenas descobertas diárias que me abrem os olhos para a beleza do mundo. Estudo o lirismo por trás do cotidiano. Ando mergulhando bem fundo dentro das mentes de poetas e teóricos que se dispuseram a pensar a realidade de um jeito mais lúdico. Mais humano. Trangressores - revoluções na ponta do lápis, marcadas pela marcha constante das antigas máquinas de escrever.
Ando provando novos gostos. Novos horizontes me enchem o peito de alegria, vê se pode. A música me toma nas horas mais inesperadas. Descarrego em qualquer papel frases sinceras, confissões descaradas - cortesia escancarada desse pobre coração. Ainda bate o danado, vigorosamente. Porém, por outros ideiais. Outros. Aprendeu que vale a pena pulsar ao som das melodias novas. Bate direitinho. Me acompanha, dita o compasso. Cambaleia às vezes pelo medo de sucumbir de novo por outro absurdo. Porém, tornou-se mais meu, mais paupável. Questão de perdas. Questão de tempo.
Parece que enxego melhor através desses olhos que não são meus. São de outra. E tão precisos que chega a doer na vista. Vermelhos, amarelos. Azul do céu parece desdobrar-se em azuis sem fim, tal qual aquarela na paleta do pintor - idéia ainda. Abstrações. Presto mais atenção ao imperceptível. Não chuto mais as pedras que deixava sempre pra saber como retornar. Cansei do caminhar cíclico que me guia sempre rumo ao inevitável fim. A minha dor de estimação perdeu o vigor. Anda velhinha, coitada. Dá pena, às vezes - como quando a gente tem um bicho por muito tempo e se apega ao pobre. Dá de comer, adestra, afaga. Ralha com ele, mas em um segundo, tudo não vira mais do que segundo passado. Ainda não me desapeguei do bicho, acredite. Afinal, foi-me companheiro durante os tempos em que eu não era mais do que idéia abstraída.
Queria mandar notícias de casa, mas por hora, adianto que o povo vai bem. Há dias que minha mãe reclama que só: que a casa virou hotel, que o som tá muito alto, que a louça ficou pra amanhã. Mas tem dias que me abraça sem mais. Ela que sempre foi tão avessa aos carinhos. Meu pai anda empolgado com a música. Manda pros amigos, todo orgulhoso. E eu orgulhosa do orgulho dele. Vive confabulando, maquinando os prós e os contras, contabilizando. Sempre foi bom em planejar as coisas. Meus irmãos, ah! Irmão é aquele ser indispensável, indescritível, que te inferniza todo santo dia, mas é só aparecer em casa cabisbaixo pra querer saber o que foi, quem foi e como foi. Não é? Aqui não poderia ser diferente.
Eu?
Não, ainda não consegui mudar algumas coisas.
Minha mania de andar nas nuvens, de não esquentar a cabeça.
Perco a noção do tempo, perco o sono, perco a carteira.
O meu eu é constituído de perdas.
Mas guardo ainda as pedras no bolso.
Fazem um barulhinho bom quando eu caminho.
Permanecerão lá, pra me lembrar que era pra sempre.
E ainda é.
Até breve, caro amigo.
...
Ando provando novos gostos. Novos horizontes me enchem o peito de alegria, vê se pode. A música me toma nas horas mais inesperadas. Descarrego em qualquer papel frases sinceras, confissões descaradas - cortesia escancarada desse pobre coração. Ainda bate o danado, vigorosamente. Porém, por outros ideiais. Outros. Aprendeu que vale a pena pulsar ao som das melodias novas. Bate direitinho. Me acompanha, dita o compasso. Cambaleia às vezes pelo medo de sucumbir de novo por outro absurdo. Porém, tornou-se mais meu, mais paupável. Questão de perdas. Questão de tempo.
Parece que enxego melhor através desses olhos que não são meus. São de outra. E tão precisos que chega a doer na vista. Vermelhos, amarelos. Azul do céu parece desdobrar-se em azuis sem fim, tal qual aquarela na paleta do pintor - idéia ainda. Abstrações. Presto mais atenção ao imperceptível. Não chuto mais as pedras que deixava sempre pra saber como retornar. Cansei do caminhar cíclico que me guia sempre rumo ao inevitável fim. A minha dor de estimação perdeu o vigor. Anda velhinha, coitada. Dá pena, às vezes - como quando a gente tem um bicho por muito tempo e se apega ao pobre. Dá de comer, adestra, afaga. Ralha com ele, mas em um segundo, tudo não vira mais do que segundo passado. Ainda não me desapeguei do bicho, acredite. Afinal, foi-me companheiro durante os tempos em que eu não era mais do que idéia abstraída.
Queria mandar notícias de casa, mas por hora, adianto que o povo vai bem. Há dias que minha mãe reclama que só: que a casa virou hotel, que o som tá muito alto, que a louça ficou pra amanhã. Mas tem dias que me abraça sem mais. Ela que sempre foi tão avessa aos carinhos. Meu pai anda empolgado com a música. Manda pros amigos, todo orgulhoso. E eu orgulhosa do orgulho dele. Vive confabulando, maquinando os prós e os contras, contabilizando. Sempre foi bom em planejar as coisas. Meus irmãos, ah! Irmão é aquele ser indispensável, indescritível, que te inferniza todo santo dia, mas é só aparecer em casa cabisbaixo pra querer saber o que foi, quem foi e como foi. Não é? Aqui não poderia ser diferente.
Eu?
Não, ainda não consegui mudar algumas coisas.
Minha mania de andar nas nuvens, de não esquentar a cabeça.
Perco a noção do tempo, perco o sono, perco a carteira.
O meu eu é constituído de perdas.
Mas guardo ainda as pedras no bolso.
Fazem um barulhinho bom quando eu caminho.
Permanecerão lá, pra me lembrar que era pra sempre.
E ainda é.
Até breve, caro amigo.
...
quarta-feira, 29 de julho de 2009
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Infância
Deu pra lembrar-se de quando era criança. De quando a mãe a sentava na mesa da cozinha para repetir, bem alto, a tabuada, enquanto batia o bolo ou preparava o jantar. Três vezes sete, vinte e um! Tenho sete namorados mas não gosto de nenhum! Sim, sim, pulava corda como ninguém, ainda mais quando os primos vinham do Rio, trazendo nas malas novas gírias e brincadeiras. Gostava da sensação de correr até cansar, cair no chão, sem medo de se machucar - era como se abraçasse o mundo de uma só vez. Talvez por isso preferisse o gol.
Acariciou a cicatriz que ainda teimava em permanecer no braço direito. Na escola, vivia imaginando como seria quando fosse grande. As meninas da oitava série não usavam uniforme. O dela voltava pra casa vez ou outra rasgado, amassado, pelo avesso. O bolso, cheio de figurinhas para trocar na hora do intervalo. A mochila carregada de papéis-rabisco, esboços incoscientes do que viria a tornar-se uma das grandes paixões.
Natal. O tecladinho vermelho, seu primeiro instrumento, ganhara, quase sem acreditar, numa noite de Natal. Riu-se ao cantarolar, baixinho, a primeira música, que tirara no canto da sala, debaixo da árvore: cai-cai-balão-cai-cai-balão-aqui-na-minha-mão. O pai gostava dos baianos. Gil e Caetano, ouvia desde que se entendera por gente. Rita, Elis, Milton, Gal, todos eles faziam-lhe companhia, contavam-lhe que o mundo era maior do que aquilo que ela conhecia. Mas a mãe se animava mesmo era com a Beth Carvalho. Olhaí, ai, o meu guri, olhaí. Anos mais tarde entendeu porque a mãe se emocionava tanto com aquela música. Chico Buarque.
Lembrou-se de um tempo em que as ruas eram bem maiores do que agora, e o quintal da casa antiga tranformava-se em palco para suas mil e uma peripécias. Recordava-se ainda do alaranjado do piso da garagem, das marcas de bola e bicicleta que enfeitavam as paredes todas - pequenos troféus das tardes em pé-de-guerra com o irmão mais novo.
E, se fechasse os olhos, bem fechadinhos, podia até jurar sentir ainda o cheiro de domingo de sol, melancia vinda da feira, carregada pelo pai.
Ao som de Djavan.
Acariciou a cicatriz que ainda teimava em permanecer no braço direito. Na escola, vivia imaginando como seria quando fosse grande. As meninas da oitava série não usavam uniforme. O dela voltava pra casa vez ou outra rasgado, amassado, pelo avesso. O bolso, cheio de figurinhas para trocar na hora do intervalo. A mochila carregada de papéis-rabisco, esboços incoscientes do que viria a tornar-se uma das grandes paixões.
Natal. O tecladinho vermelho, seu primeiro instrumento, ganhara, quase sem acreditar, numa noite de Natal. Riu-se ao cantarolar, baixinho, a primeira música, que tirara no canto da sala, debaixo da árvore: cai-cai-balão-cai-cai-balão-aqui-na-minha-mão. O pai gostava dos baianos. Gil e Caetano, ouvia desde que se entendera por gente. Rita, Elis, Milton, Gal, todos eles faziam-lhe companhia, contavam-lhe que o mundo era maior do que aquilo que ela conhecia. Mas a mãe se animava mesmo era com a Beth Carvalho. Olhaí, ai, o meu guri, olhaí. Anos mais tarde entendeu porque a mãe se emocionava tanto com aquela música. Chico Buarque.
Lembrou-se de um tempo em que as ruas eram bem maiores do que agora, e o quintal da casa antiga tranformava-se em palco para suas mil e uma peripécias. Recordava-se ainda do alaranjado do piso da garagem, das marcas de bola e bicicleta que enfeitavam as paredes todas - pequenos troféus das tardes em pé-de-guerra com o irmão mais novo.
E, se fechasse os olhos, bem fechadinhos, podia até jurar sentir ainda o cheiro de domingo de sol, melancia vinda da feira, carregada pelo pai.
Ao som de Djavan.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
tempo de colheita
Do pouco que aprendi, às vezes me escapa por entre os dedos uma certa filosofia mal acabada sobre como perpassar esses tais muros que de tão altos parecem impossíveis de se transpor.O que nos resta de tempo? O que fazer com isso?
Viver, vai ver, tem a ver com o ritual antigo da colheita. Trabalhar cantando e contando histórias. Labuta braçal mesmo, terra entravada embaixo das unhas, suor espalhado pelo corpo, pele amorenada pelo sol. Vivenciar o ciclo. De verdade.
Ao final de meses e meses a fio esperando por algo maior que o tempo, eis que a resposta virá em forma de festa:
- trigo nas caçambas, pão à mesa e vinho farto.
Viver.
Não há lógica que chegue perto.
terça-feira, 7 de julho de 2009
...
Quando eu morrer tapem os buracos das ruas:
não desperdicem cimento com o meu túmulo.
E não escrevam um livro sobre a minha vida:
economizem espaço nas prateleiras.
- Basta o que vivemos.
não desperdicem cimento com o meu túmulo.
E não escrevam um livro sobre a minha vida:
economizem espaço nas prateleiras.
- Basta o que vivemos.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
minha cidade
Minha cidade perfeita
teria flores enfeitando as moças
e leitos d'água pros cachorros brincarem.
Uma rua larga de chão batido
onde os meninos jogariam futebol,
pernas tortas estilo Garrincha.
Calçadas expostas aos boêmios da primeira hora,
pandeiro na mão
e morena ainda nos lábios.
A última cidade
da face da terra
na qual ainda se namoraria em frente portão!
Teria o moço
que escreve cartas de amor
embaixo duma árvore especialmente talhada a canivete.
Um padre no lombo dum burro,
batina surrada
e rosário na mão.
Teria também a mocinha rebelde
que fugiria das lições
pra ver nascer os bezerros.
Um dia
passaria o circo
com suas trombetas e malabares,
com seus cartazes e palhaçadas,
avisando que o mundo era muito maior do que aquilo.
Armaria a tenda bem no meu quintal:
- Respeitável público pagante!
À sua espera há promessas extraordinárias!
Tesouros inimagináveis e aventuras fora de série!
Venham todas! Venham Todos!
As moças achariam graça!
Os cachorros perseguiriam o prórpio rabo.
Os meninos ficariam encantados
e os boêmios comprariam-lhes meia dúzia de ingressos.
O moço penduraria o lápis na orelha, ressabiado,
na mesma hora que o padre faria o sinal da cruz.
E os portões da minha cidade jaziriam, desertos,
enquanto a mocinha fugiria pra sempre
deixando órfãos os bezerros.
teria flores enfeitando as moças
e leitos d'água pros cachorros brincarem.
Uma rua larga de chão batido
onde os meninos jogariam futebol,
pernas tortas estilo Garrincha.
Calçadas expostas aos boêmios da primeira hora,
pandeiro na mão
e morena ainda nos lábios.
A última cidade
da face da terra
na qual ainda se namoraria em frente portão!
Teria o moço
que escreve cartas de amor
embaixo duma árvore especialmente talhada a canivete.
Um padre no lombo dum burro,
batina surrada
e rosário na mão.
Teria também a mocinha rebelde
que fugiria das lições
pra ver nascer os bezerros.
Um dia
passaria o circo
com suas trombetas e malabares,
com seus cartazes e palhaçadas,
avisando que o mundo era muito maior do que aquilo.
Armaria a tenda bem no meu quintal:
- Respeitável público pagante!
À sua espera há promessas extraordinárias!
Tesouros inimagináveis e aventuras fora de série!
Venham todas! Venham Todos!
As moças achariam graça!
Os cachorros perseguiriam o prórpio rabo.
Os meninos ficariam encantados
e os boêmios comprariam-lhes meia dúzia de ingressos.
O moço penduraria o lápis na orelha, ressabiado,
na mesma hora que o padre faria o sinal da cruz.
E os portões da minha cidade jaziriam, desertos,
enquanto a mocinha fugiria pra sempre
deixando órfãos os bezerros.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
somos
quando penso em você não há nada que nos separe.
nem o vento que teima em cortar meus lábios,
nem o sol que te afugenta a visão:
- somos como antigamente.
quando penso em você não há nada que faça mais sentido
do que suas mãos inconstantes à procura das minhas.
sorrio pra nós todos os dias diante do espelho:
- somos como deveríamos.
quando fecho os olhos não há insanidade maior
do que te amar, assim, tão imperfeitamente.
te desconstruo em vão dentro de mim:
- somos como antigamente.
quando fecho os olhos não há nada que me surpreenda:
sou meus vícios, meus discos, meus erros,
sou sua pedra no meio do caminho.
- somos, mas não deveríamos.
nem o vento que teima em cortar meus lábios,
nem o sol que te afugenta a visão:
- somos como antigamente.
quando penso em você não há nada que faça mais sentido
do que suas mãos inconstantes à procura das minhas.
sorrio pra nós todos os dias diante do espelho:
- somos como deveríamos.
quando fecho os olhos não há insanidade maior
do que te amar, assim, tão imperfeitamente.
te desconstruo em vão dentro de mim:
- somos como antigamente.
quando fecho os olhos não há nada que me surpreenda:
sou meus vícios, meus discos, meus erros,
sou sua pedra no meio do caminho.
- somos, mas não deveríamos.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
mais uma carta pra ninguém
Talvez fosse tarde demais. Como quando sentia os primeiros pingos de chuva - grossos e certeiros - e só então se dava conta: putz, e o guarda-chuva? Era assim. Gostava de ser assim. De se deixar levar pelas circunstâncias, dobrar esquinas, passar despreocupadamente por baixo da escada. Afinal, se havia alguma coisa na vida podia controlar, eram seus passos.
---
Tinha mania de acordar tarde. De ver televisão entortando os óculos na almofada. De conversar com a cachorra bem baixinho. Gostava dos sons das cordas do violão, desde criança. Do cheiro de alho e cebola fritando. Da sensação aconchegante da infância. Vivia com a cabeça nas nuvens. Se perderia nas contas das vezes que já perdeu o RG, o guarda-chuva, o casaco preferido (...).
Cultivava calos nos dedos. Sentia-se em casa no meio da Av. Paulista. Morria de saudade do do Rio de Janeiro. Não conseguia dormir antes da 1h. Gostava de puxar papo com crianças pequenas nos shoppings por duas razões: a cara de felicidade das mães e as ótimas respostas dos pequenos. Aprendeu que escrever nem sempre é a melhor saída. E que falar às vezes alivia. (Só às vezes). Sempre se culpava pela falta de timming.
Queria ter coragem de aprender inglês de verdade. Gostava de irritar a irmã nas cenas de amor-clichê dos filmes, puro esporte. Não tinha mesmo talento apra gerenciar a própria conta bancária. Sonhava com o dia em que encontraria um amor tranquilo. Seu passatempo preferido era escrever versinhos em papéis inusitados. O sono dentro do ônibus era incontrolável. Se pudesse, largaria tudo pra morar na praia.
Não conseguia tomar banho sem ouvir som. Mas morria de vergonha de cantarolar junto. No fundo, no fundo, sempre tinha a estranha sensação de que poderia ter estudado um pouco mais. Adorava a faculdade. Um dia, viveria de música. Tardes de chuva faziam-na relembrar o passado. As melhores músicas eram as do Chico. Depois de Leminski, veio Alice Ruiz.
Gostava de cultivar bons amigos. Enxergava no abraço uma espécie de entrega gostosa e despretensiosa. Quase sempre metia os pés pelas mãos. Aprendeu a gostar de cerveja nos finais desemana. Possuía uma inabilidade notável para desenvolver frases. Engasgava por dentro. Encanava demais.
A melhor sensação do mundo era sentir o mar molhando seus pés. Definitivamente não tinha talento para eleger prioridades. Tinha mania de fones de ouvido. Morria de peguiça de cortar o cabelo. Assim que pudesse compraria um carro. Gravava CD's somente em ocasiões especiais. Tinha medo de pensar no futuro. Às vezes se lembrava daquela música que dizia "pra sempre não é todo dia".
Escolhia sempre os cadernos sem pauta pelo desafio encantador das folhas em branco. Escrevia diários desde pequena. Tinha a péssima (?) mania de riscar as frases preferidas dos livros. Se orgulhava quando aprendia a relevar. Sonhava em conhecer o Brasil inteiro. O maior carinho do mundo era andar de mãos dadas. Sabia todas as preposições de cor. O que mais doía era a sensação de impotência. Colecionava cartões-postais publicitários. Sentia muita falta da Juh!. Um dia ainda tomaria coragem para escrever uma peça de teatro.
Se pudese, comeria miojo todo dia. Deixava sempre as coisas mais importantes pra depois. Sentia falta do Centro. Suas conversas telefônicas não obedeciam a uma lógica pré determinada. Começava a passar do roxo para o vermelho. Quando crescesse se apaixonaria na hora certa. Morria de medo de crescer...
...
Laurinha - 11/02/09
---
Tinha mania de acordar tarde. De ver televisão entortando os óculos na almofada. De conversar com a cachorra bem baixinho. Gostava dos sons das cordas do violão, desde criança. Do cheiro de alho e cebola fritando. Da sensação aconchegante da infância. Vivia com a cabeça nas nuvens. Se perderia nas contas das vezes que já perdeu o RG, o guarda-chuva, o casaco preferido (...).
Cultivava calos nos dedos. Sentia-se em casa no meio da Av. Paulista. Morria de saudade do do Rio de Janeiro. Não conseguia dormir antes da 1h. Gostava de puxar papo com crianças pequenas nos shoppings por duas razões: a cara de felicidade das mães e as ótimas respostas dos pequenos. Aprendeu que escrever nem sempre é a melhor saída. E que falar às vezes alivia. (Só às vezes). Sempre se culpava pela falta de timming.
Queria ter coragem de aprender inglês de verdade. Gostava de irritar a irmã nas cenas de amor-clichê dos filmes, puro esporte. Não tinha mesmo talento apra gerenciar a própria conta bancária. Sonhava com o dia em que encontraria um amor tranquilo. Seu passatempo preferido era escrever versinhos em papéis inusitados. O sono dentro do ônibus era incontrolável. Se pudesse, largaria tudo pra morar na praia.
Não conseguia tomar banho sem ouvir som. Mas morria de vergonha de cantarolar junto. No fundo, no fundo, sempre tinha a estranha sensação de que poderia ter estudado um pouco mais. Adorava a faculdade. Um dia, viveria de música. Tardes de chuva faziam-na relembrar o passado. As melhores músicas eram as do Chico. Depois de Leminski, veio Alice Ruiz.
Gostava de cultivar bons amigos. Enxergava no abraço uma espécie de entrega gostosa e despretensiosa. Quase sempre metia os pés pelas mãos. Aprendeu a gostar de cerveja nos finais desemana. Possuía uma inabilidade notável para desenvolver frases. Engasgava por dentro. Encanava demais.
A melhor sensação do mundo era sentir o mar molhando seus pés. Definitivamente não tinha talento para eleger prioridades. Tinha mania de fones de ouvido. Morria de peguiça de cortar o cabelo. Assim que pudesse compraria um carro. Gravava CD's somente em ocasiões especiais. Tinha medo de pensar no futuro. Às vezes se lembrava daquela música que dizia "pra sempre não é todo dia".
Escolhia sempre os cadernos sem pauta pelo desafio encantador das folhas em branco. Escrevia diários desde pequena. Tinha a péssima (?) mania de riscar as frases preferidas dos livros. Se orgulhava quando aprendia a relevar. Sonhava em conhecer o Brasil inteiro. O maior carinho do mundo era andar de mãos dadas. Sabia todas as preposições de cor. O que mais doía era a sensação de impotência. Colecionava cartões-postais publicitários. Sentia muita falta da Juh!. Um dia ainda tomaria coragem para escrever uma peça de teatro.
Se pudese, comeria miojo todo dia. Deixava sempre as coisas mais importantes pra depois. Sentia falta do Centro. Suas conversas telefônicas não obedeciam a uma lógica pré determinada. Começava a passar do roxo para o vermelho. Quando crescesse se apaixonaria na hora certa. Morria de medo de crescer...
...
Laurinha - 11/02/09
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Há um grito dentro de mim
Como a sede que atravessou as gerações e subverteu antigas hierarquias. Sou, de vez em quando, como o dia de ontem: oprimido, abafado, carregado de nuvens maiores que os homens. Sou como o desenho que há nas calçadas da Av. Paulista: inexato, lascado e acinzentado. Coleciono setembros.
Não estou aqui para apontar nossos males. Não vim revelar nenhum tipo de cura. Não há remédio para o nosso tédio. Não há mesmo um conflito que chegue perto. Não há ferro ou fogo que nos alivie por dentro. Falta de respeito que acalente nosso desalento.
Somos quem somos. E nossa beleza está justamente nisso. Na falta que sinto entre os dedos. Na força da chuva que me purifica por dentro. Nas tardes que desperdiço, cabelos ao vento. Em poucas rimas tolas e fúteis nas quais me sustento.
Há no ar uma nova atmosfera. Somos jovens? Desperdiçamos realmente nossos sonhos a cada passo errado? Ou nos deliciamos a ponto de não haver mais receio? Será que um dia fomos mesmo tudo aquilo que deixamos pelo caminho?
- Um dia, quem sabe, acordaremos.
...
Não estou aqui para apontar nossos males. Não vim revelar nenhum tipo de cura. Não há remédio para o nosso tédio. Não há mesmo um conflito que chegue perto. Não há ferro ou fogo que nos alivie por dentro. Falta de respeito que acalente nosso desalento.
Somos quem somos. E nossa beleza está justamente nisso. Na falta que sinto entre os dedos. Na força da chuva que me purifica por dentro. Nas tardes que desperdiço, cabelos ao vento. Em poucas rimas tolas e fúteis nas quais me sustento.
Há no ar uma nova atmosfera. Somos jovens? Desperdiçamos realmente nossos sonhos a cada passo errado? Ou nos deliciamos a ponto de não haver mais receio? Será que um dia fomos mesmo tudo aquilo que deixamos pelo caminho?
- Um dia, quem sabe, acordaremos.
...
terça-feira, 19 de maio de 2009
...
Quase todos os dias me arrependo. É que em dias como os nossos é preciso ter cuidado. E, por mais estranho que possa parecer, chego à conclusão de que não há nada de tão importante assim em jogo, como se o mundo fosse algo além ou aquém da nossa vã compreensão.
Vi um filme, esses dias, em que a Terra era simplesmente algo como uma interface de um jogo de videogame muito evoluído e complexo criado por um programador genial (Deus). Esse programador possuía vários avatares (personagens que habitavam esse mundo) e, de vez em quando, se utilizava deles para vivenciar um pouco das sensações e experiêcias que esse mundo proporcionava.
Não vou me lembrar do nome do filme.
Mas fez sentido.
...
Vi um filme, esses dias, em que a Terra era simplesmente algo como uma interface de um jogo de videogame muito evoluído e complexo criado por um programador genial (Deus). Esse programador possuía vários avatares (personagens que habitavam esse mundo) e, de vez em quando, se utilizava deles para vivenciar um pouco das sensações e experiêcias que esse mundo proporcionava.
Não vou me lembrar do nome do filme.
Mas fez sentido.
...
sexta-feira, 15 de maio de 2009
a tentação
Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.
Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava.
Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.
Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.
Lá vinha ele trotando, à frente da sua dona, arrastando o seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.
A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.
Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.
Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.
Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos.
No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes do Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.
Mas ambos eram comprometidos.
Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.
A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina.
Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.
Clarice Lispector
[meu conto preferido dela. tem me voltado à cabeça ultimamente...]
Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava.
Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.
Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.
Lá vinha ele trotando, à frente da sua dona, arrastando o seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.
A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.
Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.
Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.
Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos.
No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes do Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.
Mas ambos eram comprometidos.
Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.
A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina.
Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.
Clarice Lispector
[meu conto preferido dela. tem me voltado à cabeça ultimamente...]
segunda-feira, 11 de maio de 2009
vale a pena citar (I)
(abre aspas)
#183
_ gente, o wolverine tá lá na zl e eu aqui comendo activia no trabalho.
Postado por F.M. em 5/05/2009 03:46:00 PM
(fecha aspas)

créditos: http://problematizandooevidente.blogspot.com/2009/05/183.html
#183
_ gente, o wolverine tá lá na zl e eu aqui comendo activia no trabalho.
Postado por F.M. em 5/05/2009 03:46:00 PM
(fecha aspas)

créditos: http://problematizandooevidente.blogspot.com/2009/05/183.html
domingo, 10 de maio de 2009
(des)conhecidos
Era ainda um moleque quando a viu pela primeira vez. Bem lá no fundo sentiu uma pontada, um sopro, algo entre a inquietude e o medo. Era ainda tão intacto. Não sabia dos crimes, não lia sobre as guerras, não conhecia o desamor. Ela era toda dele, mesmo sem o ser. Mais tarde aprenderia que ter e ser eram apenas verbos vazios. Assim como, naquele dia, amar o seria.
Olharam-se. Ela logo sentiu um arrepio que desconhecia. Ainda hoje se lembra de como os olhos dele pareciam feitos de pedra, dessas que carregam consigo as intermitências das marés. Desconhecia o tanto de vida que teria pela frente. Não. O aqui era o aqui, e o agora, já. Toda ela era urgência. Na certa quebrariam o silêncio, pensou. Não chegou a cogitar a possibilidade de quebrá-lo primeiro. Nem teve tempo de se arrepender.
Olhou para a ponta dos sapatos. Procurou reforçar a imagem dela na retina, com receio de que perdesse a habilidade de descrevê-la a quem quer que fosse. Mal sabia que, mesmo anos e anos depois, ainda se recordaria do barulho intrincado dos carros passando, do cinza carregado das ruas, do medo de errar. Ela não coube em seus livros, nem nas músicas.
Algo a prendia ao chão.
Ele já sabia voar.
...
Olharam-se. Ela logo sentiu um arrepio que desconhecia. Ainda hoje se lembra de como os olhos dele pareciam feitos de pedra, dessas que carregam consigo as intermitências das marés. Desconhecia o tanto de vida que teria pela frente. Não. O aqui era o aqui, e o agora, já. Toda ela era urgência. Na certa quebrariam o silêncio, pensou. Não chegou a cogitar a possibilidade de quebrá-lo primeiro. Nem teve tempo de se arrepender.
Olhou para a ponta dos sapatos. Procurou reforçar a imagem dela na retina, com receio de que perdesse a habilidade de descrevê-la a quem quer que fosse. Mal sabia que, mesmo anos e anos depois, ainda se recordaria do barulho intrincado dos carros passando, do cinza carregado das ruas, do medo de errar. Ela não coube em seus livros, nem nas músicas.
Algo a prendia ao chão.
Ele já sabia voar.
...
quinta-feira, 26 de março de 2009
palavra (en)cantada

Imagine um documentário cujo tema seja música e contenha os depoimentos de, nada mais, nada menos, que Chico Buarque, Maria Bethânia e Lenine (só pra citar alguns dos nomes que engrossam o time de feras que faz parte de Palavra (En)Cantada, documentário que já está em cartaz nos cinemas aqui de São Paulo).
Se você é músico, arranha um instrumento ou simplesmente gosta de música não deve deixar de ver esse filme que passeia pela trajetória da palavra como canção. Os três primeiros minutos, sem brincadeira nenhuma, já valem o ingresso.
segunda-feira, 23 de março de 2009
à espreita
Às três horas da manhã entrelaço os dedos pelos seus cabelos.
Cena de cinema.
Não há mais obstáculos entre você e o meu silêncio.
Juro.
Pelas ruas, a guerrilha da saudade me espera, de tocaia, atrás da esquina.
Tenho medo.
...
Cena de cinema.
Não há mais obstáculos entre você e o meu silêncio.
Juro.
Pelas ruas, a guerrilha da saudade me espera, de tocaia, atrás da esquina.
Tenho medo.
...
sexta-feira, 13 de março de 2009
triste fim...
... de um dos melhores blogs que eu já acompanhei!
Me lembro como se fosse ahoje, a Juh! me mandou o link pelo msn:
- Dá uma lida, é a sua cara, você vai adorar!
E não é que não deu outra?
De que blog estou falando? Nada mais, nada menos do que o Garotas que dizem Ni!
http://garotasquedizemni.ig.com.br/
Trata-se de um blog criado por 3 amigas jornalistas que, a cada dia, abordavam um assunto diferente: pequenas crônicas, as divertidas listas, os manuais pra lá de úteis... tudo com muito humor e inteligência.
A má notícia é que elas fecharam a linha de produção. A boa é que o vasto acervo de escritos continua lá!
http://garotasquedizemni.ig.com.br/archives/000196.php
(esse vale a pena!)
Enfim, boa diversão!
=]
Me lembro como se fosse ahoje, a Juh! me mandou o link pelo msn:
- Dá uma lida, é a sua cara, você vai adorar!
E não é que não deu outra?
De que blog estou falando? Nada mais, nada menos do que o Garotas que dizem Ni!
http://garotasquedizemni.ig.com.br/
Trata-se de um blog criado por 3 amigas jornalistas que, a cada dia, abordavam um assunto diferente: pequenas crônicas, as divertidas listas, os manuais pra lá de úteis... tudo com muito humor e inteligência.
A má notícia é que elas fecharam a linha de produção. A boa é que o vasto acervo de escritos continua lá!
http://garotasquedizemni.ig.com.br/archives/000196.php
(esse vale a pena!)
Enfim, boa diversão!
=]
quinta-feira, 5 de março de 2009
vinte anos blue
"ontem de manhã quando acordei
olhei a vida e me espantei
eu tenho mais de vinte anos
e eu tenho mais de mil perguntas
sem respostas"
Sim, eu tenho mais de vinte anos. Às vezes me pergunto o que foi feito da vida que eu achava que deveria ter. Da pessoa que eu achava que deveria me tornar. Talvez aos 40 eu apenas confirme a minha antiga teoria de que, realmente, nada faz mesmo muito sentido. Por hora, me permito transgredir.
Quando eu era criança, certa vez, prometi à minha mãe que quando fizesse 18 anos compraria um avião pra gente passear. Ela sorriu, e, hoje em dia, entendo completamente o que ela quis me dizer, calando-se. Acho que pouco mudou em mim desde então. Sempre acabo achando que as minhas verdades soam aos ouvidos mais experientes como aquela mesma sentença infantil: pura ingenuidade.
Um grande amigo me disse, uma vez, que a gente percebe que está crescendo quando mudam as perguntas. Eu sempre achei que perceberia o passar do tempo ao encontrar as respostas. E se eu as encontrasse, de fato? Viver teria tanta graça? Talvez a cura do tédio seja mesmo esse mix louco de impropabilidades e impossibilidades.
"Só o impensável é impossível", já disse o poeta.
Sei que, no fundo, falo tudo isso da boca pra fora. Porque soa bonito. Na real, gostaria de saber minimamente o que estou fazendo. Aonde cada passo irá me levar. Será que eu deveria ser menos radical? Mesmo? Contra-argumento a mim mesma que esse radicalismo nada mais foi uma maneira que encontrei de não me machucar mais. Construir muros. Solidificar as estruturas.
Sinto falta de vestir o uniforme da escola. De jogar bola a tarde inteira e depois ir tomar um sorvete. De não ter conta no banco. De passar dois meses inteiros no Rio de Janeiro com o meu avô. De não entender as pequenas grandes desavenças familiares. De ir às festinhas de aniversário nos bufês infantis. De escrever pro Papai Noel. Se sonhar leve, à noite. De jogar truco na frente do grêmio. Do primeiro amor. Das tardes no cursinho. De quando meu pai cantava pra eu dormir.
Ano passado encontrei um antigo amigo da época do colégio. Era do tipo revoltado (todos éramos, à nossa maneira), mas ele era mais. Fazia questão de transgredir todas as regras, usava o cabelo mais bagunçado possível, as roupas mais estranhas que encontrava, os tênis mais sujos, as palavras mais desencontradas. Dizia ser punk-anarquista ou algo do tipo. Nunca se curvaria ao sistema! Não aos governos! Na formatura, não vestiu terno e fez questão de ir com um fio de telefone (daqueles antigos, em espiral) pendurado do lado da calça.
Pois, como eu já ia dizendo, encontrei esse camarada, e tomei um susto! Cabelo certinho, terno e gravata, pasta de executivo na mão...
Sei que acordei nostálgica. Meus amigos estão se casando! Saindo de casa, dirigindo, se formando, indo morar em outras cidades, outros estados, outros países. Montando seus negócios. Alguns até já têm filhos! Meus amigos não têm mais as tardes de dia de semana livres pra um cinema. Todos eles trabalham, correm atrás do seu...
... e alguns já se misturam à massa apressada que, todos os dias, atravessa as ruas da cidade. Essa massa a qual eu tenho tanto medo de já pertencer também.
...
mais textos: http://www.fotolgo.com/vamos_laura
olhei a vida e me espantei
eu tenho mais de vinte anos
e eu tenho mais de mil perguntas
sem respostas"
Sim, eu tenho mais de vinte anos. Às vezes me pergunto o que foi feito da vida que eu achava que deveria ter. Da pessoa que eu achava que deveria me tornar. Talvez aos 40 eu apenas confirme a minha antiga teoria de que, realmente, nada faz mesmo muito sentido. Por hora, me permito transgredir.
Quando eu era criança, certa vez, prometi à minha mãe que quando fizesse 18 anos compraria um avião pra gente passear. Ela sorriu, e, hoje em dia, entendo completamente o que ela quis me dizer, calando-se. Acho que pouco mudou em mim desde então. Sempre acabo achando que as minhas verdades soam aos ouvidos mais experientes como aquela mesma sentença infantil: pura ingenuidade.
Um grande amigo me disse, uma vez, que a gente percebe que está crescendo quando mudam as perguntas. Eu sempre achei que perceberia o passar do tempo ao encontrar as respostas. E se eu as encontrasse, de fato? Viver teria tanta graça? Talvez a cura do tédio seja mesmo esse mix louco de impropabilidades e impossibilidades.
"Só o impensável é impossível", já disse o poeta.
Sei que, no fundo, falo tudo isso da boca pra fora. Porque soa bonito. Na real, gostaria de saber minimamente o que estou fazendo. Aonde cada passo irá me levar. Será que eu deveria ser menos radical? Mesmo? Contra-argumento a mim mesma que esse radicalismo nada mais foi uma maneira que encontrei de não me machucar mais. Construir muros. Solidificar as estruturas.
Sinto falta de vestir o uniforme da escola. De jogar bola a tarde inteira e depois ir tomar um sorvete. De não ter conta no banco. De passar dois meses inteiros no Rio de Janeiro com o meu avô. De não entender as pequenas grandes desavenças familiares. De ir às festinhas de aniversário nos bufês infantis. De escrever pro Papai Noel. Se sonhar leve, à noite. De jogar truco na frente do grêmio. Do primeiro amor. Das tardes no cursinho. De quando meu pai cantava pra eu dormir.
Ano passado encontrei um antigo amigo da época do colégio. Era do tipo revoltado (todos éramos, à nossa maneira), mas ele era mais. Fazia questão de transgredir todas as regras, usava o cabelo mais bagunçado possível, as roupas mais estranhas que encontrava, os tênis mais sujos, as palavras mais desencontradas. Dizia ser punk-anarquista ou algo do tipo. Nunca se curvaria ao sistema! Não aos governos! Na formatura, não vestiu terno e fez questão de ir com um fio de telefone (daqueles antigos, em espiral) pendurado do lado da calça.
Pois, como eu já ia dizendo, encontrei esse camarada, e tomei um susto! Cabelo certinho, terno e gravata, pasta de executivo na mão...
Sei que acordei nostálgica. Meus amigos estão se casando! Saindo de casa, dirigindo, se formando, indo morar em outras cidades, outros estados, outros países. Montando seus negócios. Alguns até já têm filhos! Meus amigos não têm mais as tardes de dia de semana livres pra um cinema. Todos eles trabalham, correm atrás do seu...
... e alguns já se misturam à massa apressada que, todos os dias, atravessa as ruas da cidade. Essa massa a qual eu tenho tanto medo de já pertencer também.
...
mais textos: http://www.fotolgo.com/vamos_laura
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
chuva
Sentou-se para ouvir melhor a chuva.
Queria escrever, mas não sabia direito se a lápis ou a caneta. Difícil escolha.
Escrever a lápis nada mais era do que o exercício da covardia: colher palavras, compor o clima certo, perseguir as metáforas infallíveis.
Já as palavras escritas a caneta... essas não tinham volta.
Queria escrever, mas não sabia direito se a lápis ou a caneta. Difícil escolha.
Escrever a lápis nada mais era do que o exercício da covardia: colher palavras, compor o clima certo, perseguir as metáforas infallíveis.
Já as palavras escritas a caneta... essas não tinham volta.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
POETAS EM CENA

A série Poeta em Cena - desenvolvida pela Biblioteca Municipal Alceu de Amoroso Lima, entre agosto a novembro de 2008 - ganha novo formato dentro do V Verão de Poesia, promovido pela Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, em 2009, com entrada franca.
Intuindo promover o encontro entre a Poesia e o Teatro, o projeto Poeta em Cena é uma homenagem a autores contemporâneos por meio da encenação de seus poemas. Com direção de Helder Mariani, assessoria artística de Denise Weinberg e pesquisa literária de Flávio Rodrigo Penteado, as apresentações são frutos do processo criativo e colaborativo da equipe artística com os atores, revelando formas diferentes de materializar os poemas dentro da linguagem cênica.
A primeira apresentação na Casa das Rosas acontece no dia 24 de janeiro, sábado, às 20 horas, e reúne, excepcionalmente, as quatro encenações da série com obras de todos os poetas homenageados, em dois blocos: Roberto Piva & Glauco Mattoso e Alice Ruiz & Paulo Ferraz. A partir do dia 31 de janeiro, a temporada segue com apresentações aos sábados (Roberto Piva & Glauco Mattoso) e domingos (Paulo Ferraz & Alice Ruiz), até 15 de fevereiro, sempre às 20 horas.
O debate sobre as fronteiras entre teatro e literatura é antigo e conheceu diversos extremos, ora pendendo a favor da arte da palavra, quando se acreditou ser o teatro mero veículo da literatura dramática, ora a favor da arte da representação, quando se julgou a palavra como mero substrato da encenação. Ciente de que a competição entre as duas artes nasce da aceitação de semelhanças existentes entre ambas, o projeto Poeta em Cena procura conferir outra tônica à discussão e pensar a especificidade do discurso poético contemporâneo por meio do palco.
Acontecerá ainda, ao longo da temporada, uma oficina com os poetas que tiveram suas obras encenadas. O bate-papo com o público será mediado por Helder Mariani e acontece nos dias 23 e 30 de janeiro e 6 e 13 de fevereiro, sextas-feiras, às 20 horas, respectivamente com Roberto Piva, Glauco Mattoso, Alice Ruiz e Paulo Ferraz.
Cronograma das apresentações:
Dia 24 de Janeiro - sábado - às 20 horas - Duração: 3 horas (c/ intervalo) Poetas: Roberto Piva & Glauco Mattoso e Alice Ruiz & Paulo Ferraz
Elenco: Carolina Splendore, Daniel Kronenberg, Fabiano Amigucci, Flavia Teixeira, Gabriel Godoy, Gabriel Malo, Gabriela Cerqueira, Giuliana Oliveira e Teca Spera.
Part. especial: Denise Weinberg, Laurinha Guimarães e Tato Fischer.
Dias 31 de janeiro e 1º de fevereiro - sábado e domingo - às 21 horas
Dias 7, 8, 14 e 15 de fevereiro - sábados e domingos - às 20 horas
Duração: 1h30 (cada, s/ intervalo)
Sábados: encenação de poemas de Roberto Piva & Glauco Mattoso
Elenco: Daniel Kronenberg, Fabiano Amigucci, Gabriel Godoy, Gabriel Malo, Gabriela Cerqueira e Guiliana Oliveira; part. especial: Tato Fischer (teclados).
Domingos: encenação de poemas de Alice Ruiz & Paulo Ferraz
Elenco: Flavia Teixeira, Gabriela Cerqueira, Giuliana Oliveira, Carolina Splendore, Fabiano Amigucci e Teca Spera; part. especial: Laurinha Guimarães (violão); vídeos: Luiz Altieri.
Oficinas Poeta em Cena Mediação: Helder Mariani
Dia 23 de janeiro - sexta - às 20 horas - com Roberto Piva
Dia 30 de janeiro - sexta - às 20 horas - com Glauco Mattoso
Dia 06 de fevereiro - sexta - às 20 horas - com Alice Ruiz
Dia 13 de fevereiro - sexta-feira - às 20 horas - com Paulo Ferraz
V Verão de Poesia
Série: Poeta em Cena
Criação, coordenação e produção: Flávio Rodrigo Penteado e Helder Mariani
Direção de encenação: Helder Mariani
Pesquisa literária: Flávio Rodrigo Penteado
Assistentes de direção: Daniel Kronenberg e Gabriel Godoy
Assessoria artística: Denise Weinberg
Local: Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura
Avenida Paulista, nº. 37 - São Paulo/SP - Tel: (11) 3285-6986 Ingressos: Grátis - Bilheteria: 1h antes do espetáculo
Gênero: Teatro (poesia encenada) - Não recomendável p/ menores de 14 anos
Capacidade: 50 lugares - Possui acesso universal. Não possui ar condicionado. Não possui estacionamento.
Site: http://www.poiesis.org.br/casadasrosas
domingo, 4 de janeiro de 2009
domingo, 28 de dezembro de 2008
sobre leões e morangos
Um homem estava numa floresta escura.
De repente ouviu o rugido terrível. Era um leão. Aterrorizado, ele se pôs a correr como louco. Não viu por onde ia, caiu num precipício. No desespero da queda agarrou-se num galho.
Ali, entre o leão acima e o abismo abaixo, ele ficou.
Foi então que ele, olhando para a parede do precipício, viu ali um pé de morango. E, nele, um morando gordo e vermelho. Estendeu o seu braço, colheu o morango e o comeu.
Estava delicioso.
De repente ouviu o rugido terrível. Era um leão. Aterrorizado, ele se pôs a correr como louco. Não viu por onde ia, caiu num precipício. No desespero da queda agarrou-se num galho.
Ali, entre o leão acima e o abismo abaixo, ele ficou.
Foi então que ele, olhando para a parede do precipício, viu ali um pé de morango. E, nele, um morando gordo e vermelho. Estendeu o seu braço, colheu o morango e o comeu.
Estava delicioso.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Música

Admiração.
Leva
Leila Pinheiro
Não tenho medo de nada
porque vivo minha vida
como quem sorve uma taça
de preciosa bebida
saboreio lentamente
cada hora, cada dia
nas coisas que tão somente
fazem a minha alegria
Eu te dou um forte abraço
eu canto
eu digo um agrado
tudo pra ver teu sorriso
o teu sorriso é sagrado
e, às vezes, apenas isto
é luz que dissipa a treva
A gente leva da vida, amor
a vida que a gente leva
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
(areia)
ando meio afastada daqui.
talvez porque esteja me dedicando mais ao caderno que comprei faz 3 meses e estava lá, engavetado, folhas novinhas sem pauta, que eu demorei um tempão pra achar naquela papelaria do conjunto nacional.
a mari chatona é que sempre me dizia que preferia escrever no papel. nunca fui muito disso. acho que, para mim, as teclas são mais libertárias. mas concordo com ela num ponto: muitas idéias se perdem ao longo do dia. cheguei até a ganhar de presente da galera da faculdade, no aniversário do ano passado, um bloquinho lindo (folhas sem pauta!!). fiquei com dó de usar.
engraçado isso, mas no fundo, acho bonito isso de folha em branco. e também tenho uma velha mania de passar tudo à limpo que me tira do sério, às vezes.
...
conversas fiadas à parte, os projetos vão bem.
um final do ano que, pela primeira vez, me deixa vislumbrar um ano seguinte cheio de realizações.
toco o barco, à minha maneira.
talvez porque esteja me dedicando mais ao caderno que comprei faz 3 meses e estava lá, engavetado, folhas novinhas sem pauta, que eu demorei um tempão pra achar naquela papelaria do conjunto nacional.
a mari chatona é que sempre me dizia que preferia escrever no papel. nunca fui muito disso. acho que, para mim, as teclas são mais libertárias. mas concordo com ela num ponto: muitas idéias se perdem ao longo do dia. cheguei até a ganhar de presente da galera da faculdade, no aniversário do ano passado, um bloquinho lindo (folhas sem pauta!!). fiquei com dó de usar.
engraçado isso, mas no fundo, acho bonito isso de folha em branco. e também tenho uma velha mania de passar tudo à limpo que me tira do sério, às vezes.
...
conversas fiadas à parte, os projetos vão bem.
um final do ano que, pela primeira vez, me deixa vislumbrar um ano seguinte cheio de realizações.
toco o barco, à minha maneira.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
noite de terça
Quase não fui, mas fui.
E não me arrependi.
Descortinou-se diante dos meus olhos um novo poeta talentosíssimo.
Se fechasse a porta atrás de si
ou se aberta a mantivesse
o resultado seria o mesmo,
que fechado não é estar preso por paredes
(mundo à parte),
mas têm estas de apartar
o que é de dentro do de fora
que fechar o já fechado
- qualidade não de coisas
mas de gente em si chaveada
pela boca que não fala
pela mão que recua ao toque;
qualidade do invisível para o aberto -
não o isolado;
gente cuja pele é a própria cela
inviável para passos entre passos
que se morta só se sabe pelo cheiro,
nunca pela menor falta
que não causa.
[não faz falta, in constatação do óbvio, paulo ferraz]
...
E não me arrependi.
Descortinou-se diante dos meus olhos um novo poeta talentosíssimo.
Se fechasse a porta atrás de si
ou se aberta a mantivesse
o resultado seria o mesmo,
que fechado não é estar preso por paredes
(mundo à parte),
mas têm estas de apartar
o que é de dentro do de fora
que fechar o já fechado
- qualidade não de coisas
mas de gente em si chaveada
pela boca que não fala
pela mão que recua ao toque;
qualidade do invisível para o aberto -
não o isolado;
gente cuja pele é a própria cela
inviável para passos entre passos
que se morta só se sabe pelo cheiro,
nunca pela menor falta
que não causa.
[não faz falta, in constatação do óbvio, paulo ferraz]
...
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
O Silêncio e o Tempo
Chegou sorrateiro, assim, como quem vem de férias.
Por ser Silêncio, não disse nada nem pediu nada em troca. Não me cobrou juízo, senso de ridículo, coerência. Nada. Apenas segurou minha mão daquele jeito inquieto de quem tem algo substancial a dizer e mesmo assim se cala. Encarei-o de frente e, de repente, surpreendi-me com sua fragilidade que, lá no fundo, nada mais era que a minha própria.
Observamos, calados, a noite alta a nos rasgar o peito. Quis gritar e ele, delicadamente firme, me deteve o gesto, que ficou preso na entrada da garganta. Foi somente nesse instante que o compreendi. A primeira palavra minha o levaria para longe - o Silêncio não sobrevive aos ecos e sons.
Permanecemos, desse modo, mudos, por dentro e por fora. Eu precisava dele ao meu lado, mesmo que, nessa altura, já não nos fizéssemos mais bem.
O Tempo passou. E parou. Bem na nossa frente. Conseguíamos enxergá-lo nitidamente, lá do alto de sua sabedoria, mesmo a quilômetros de distância. Vinha de moto, inconseqüentemente despreocupado. Entreolharam-se - o Tempo e o Silêncio. Velhos amigos. Velhos rivais. Eram, os dois, puro contraste: o primeiro carregado de marcas, mágoas e aventuras; o segundo, imaculado, amargurado e em paz.
Abraçaram-se longamente e percebi, então, que se tratava de um encontro incomum. Possuíam um elo incompreensível e, ao mesmo tempo, perfeito.
No instante seguinte, desceu da moto e afagou-me as feridas com um certo quê de orgulho. Bebeu das minhas lágrimas como quem se fortalece. Ergueu-me o queixo maternalmente, fitando-me os olhos vidrados e seu olhar era meu espelho. Sua coragem era tamanha que, dentro de mim, traduzia-se em medo.
Foi então que aconteceu. Aninhou-se em meu colo, como uma criança. Tremia dos pés à cabeça. E eu ali, sem saber o quê. Ou como. Procurei desesperadamente o Silêncio por entre a noite que se aproximava do fim. Encontrei-o já em cima da moto, como se tivesse nascido para aquele momento. Havia naqueles olhos algo tão lindo que, só no instante seguinte, compreendi:
- Vai passar.
...
Por ser Silêncio, não disse nada nem pediu nada em troca. Não me cobrou juízo, senso de ridículo, coerência. Nada. Apenas segurou minha mão daquele jeito inquieto de quem tem algo substancial a dizer e mesmo assim se cala. Encarei-o de frente e, de repente, surpreendi-me com sua fragilidade que, lá no fundo, nada mais era que a minha própria.
Observamos, calados, a noite alta a nos rasgar o peito. Quis gritar e ele, delicadamente firme, me deteve o gesto, que ficou preso na entrada da garganta. Foi somente nesse instante que o compreendi. A primeira palavra minha o levaria para longe - o Silêncio não sobrevive aos ecos e sons.
Permanecemos, desse modo, mudos, por dentro e por fora. Eu precisava dele ao meu lado, mesmo que, nessa altura, já não nos fizéssemos mais bem.
O Tempo passou. E parou. Bem na nossa frente. Conseguíamos enxergá-lo nitidamente, lá do alto de sua sabedoria, mesmo a quilômetros de distância. Vinha de moto, inconseqüentemente despreocupado. Entreolharam-se - o Tempo e o Silêncio. Velhos amigos. Velhos rivais. Eram, os dois, puro contraste: o primeiro carregado de marcas, mágoas e aventuras; o segundo, imaculado, amargurado e em paz.
Abraçaram-se longamente e percebi, então, que se tratava de um encontro incomum. Possuíam um elo incompreensível e, ao mesmo tempo, perfeito.
No instante seguinte, desceu da moto e afagou-me as feridas com um certo quê de orgulho. Bebeu das minhas lágrimas como quem se fortalece. Ergueu-me o queixo maternalmente, fitando-me os olhos vidrados e seu olhar era meu espelho. Sua coragem era tamanha que, dentro de mim, traduzia-se em medo.
Foi então que aconteceu. Aninhou-se em meu colo, como uma criança. Tremia dos pés à cabeça. E eu ali, sem saber o quê. Ou como. Procurei desesperadamente o Silêncio por entre a noite que se aproximava do fim. Encontrei-o já em cima da moto, como se tivesse nascido para aquele momento. Havia naqueles olhos algo tão lindo que, só no instante seguinte, compreendi:
- Vai passar.
...
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
amores (im)possíveis
Zapeando pelos canais alternativos da NET me deparei com uma palestra muito boa do escritor e psicanalista Rubem Alves na TV Câmara. Eu já tinha lido algumas crôncias dele, que me foram apresentadas por uma grande amiga, Juh!, que anda sumida, sumida...
Fuçando pela web dá pra assistir na íntegra, vale muito a pena:
bloco I
bloco II
bloco III
Bloco IV
Há muitos pontos de vista interessantes no discurso do escritor, que conta, ao longo da divertida palestra, que a idéia de escrever um livro sobre o amor surgiu de uma dolorosa experiência de rompimento. A partir daí, surgiu a necessidade de se expressar.
Tentar entender um tema que já foi, e ainda é, tão discutido e analisado não é tarefa das mais fáceis. Até porque, segundo os grandes críticos, é preciso, sobretudo, obter uma distância considerável do objeto de estudo para que, então, se cogite algum tipo de sucesso.
Chegamos, então, ao ponto-chave da questão.
Como manter distância de algo tão presente, tão instigante e tão envolvente como a relação amorosa, amor, paixão, desejo (seja lá qual for a nomenclatura correta)?
Pois é.
E é por isso que Rubem Alves consegue, de maneira sutil e bela, nos conduzir através do seu próprio encantamento e de sua própria dor. Afinal de contas, um tema tão universal precisa sim de toda passionalidade possível.
Termino então com uma frase retirada da palestra:
"Querer ter razão é prova de mediocridade"
...
Fuçando pela web dá pra assistir na íntegra, vale muito a pena:
bloco I
bloco II
bloco III
Bloco IV
Há muitos pontos de vista interessantes no discurso do escritor, que conta, ao longo da divertida palestra, que a idéia de escrever um livro sobre o amor surgiu de uma dolorosa experiência de rompimento. A partir daí, surgiu a necessidade de se expressar.
Tentar entender um tema que já foi, e ainda é, tão discutido e analisado não é tarefa das mais fáceis. Até porque, segundo os grandes críticos, é preciso, sobretudo, obter uma distância considerável do objeto de estudo para que, então, se cogite algum tipo de sucesso.
Chegamos, então, ao ponto-chave da questão.
Como manter distância de algo tão presente, tão instigante e tão envolvente como a relação amorosa, amor, paixão, desejo (seja lá qual for a nomenclatura correta)?
Pois é.
E é por isso que Rubem Alves consegue, de maneira sutil e bela, nos conduzir através do seu próprio encantamento e de sua própria dor. Afinal de contas, um tema tão universal precisa sim de toda passionalidade possível.
Termino então com uma frase retirada da palestra:
"Querer ter razão é prova de mediocridade"
...
terça-feira, 28 de outubro de 2008
re-postando #1

Tinha vontade de correr como nunca. Corria, então. A cidade à noite intercalava os claros e escuros como se quisesse deixá-la ainda mais atordoada. Atordoava-se.
Lembrou-se da vez em que leu em algum lugar que a vida em si é o maior tormento: escolhas. Sentia-se sempre como numa encruzilhada, acuada, forçada pelas circunstâncias. Não gostava dessa sensação. Não suportava ter que escolher, entre tantos, um caminho. O caminho. Preferia ser levada e se deixar levar. Por mais que essa atitude, no final das contas, fosse apenas mais uma escolha.
Nada de placas, de avisos, nem sinais. Porque Deus - lera em outro lugar - Deus é subjetivo. Subjetivamente sarcástico. Deixa pequenas peças de um enorme quebra-cabeça, uma por uma, nos lugares mais absurdos e improváveis. É. E pode ter certeza que a maioria sempre perde uma aqui, outra ali. Apenas peças desconexas. Deus...
Mas era nova ainda. Sentia o peso do mundo na ponta dos dedos, quase sempre. O peso das escolhas erradas. Mesmo das certas: as certas só eram certas mesmo para os outros. Aparências. Auto-controle. Todo mundo em volta tão auto-suficiente em seus carros e casas e apartamentos. Indo e voltando de casa, do trabalho, da escola numa rotina sufocantemente cheia de sonhos frustrados. De palavras não ditas. Dogmas.
Certa vez estudara a órbita dos planetas e achara aquilo tudo de uma sincronia matemática realmente assustadora. Além dos planetas, milhares de corpos menores executam suas órbitas em torno do Sol, movidos por uma força de atração incomum. Inquestionável. Intrasponível. Tudo tendendo para o caos.
Apenas isso - partículas, choque, atração e repulsão - fazia o mundo girar. Nada de humano, nada de falível. O peso do mundo na ponta dos dedos.
E seu mundo girava torto, afinal.
Laurinha
[06.07.05]
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Por não estarem distraídos
Clarice Lispector
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água de les, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali.
Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram.
Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.
Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
...
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água de les, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali.
Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram.
Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.
Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
...
domingo, 12 de outubro de 2008
Senhorita Pri
Em resposta ao teu lindo texto.
Há quem diga que progresso é máquina, capital, ciência.
E que o mundo será mais mundo daqui a cinqüenta anos.
Recorramos à arte, então.
Para que, lá na frente, andemos ainda unidos.
Para que não esquçamos que ainda é possível rirmos juntos.
Apesar do MSN, Orkut e Skype.
Ainda é possível nos sentirmos um na pele do outro.
O encontro é possível, apesar de, como já disse Vinícius, ainda haja tanto desencontro pela vida.
Já cansei de tentar definir o que é arte.
Arte, pra mim, é o mundo.
Continuemos na luta então, querida!
E ganhemos o mundo!
Há quem diga que progresso é máquina, capital, ciência.
E que o mundo será mais mundo daqui a cinqüenta anos.
Recorramos à arte, então.
Para que, lá na frente, andemos ainda unidos.
Para que não esquçamos que ainda é possível rirmos juntos.
Apesar do MSN, Orkut e Skype.
Ainda é possível nos sentirmos um na pele do outro.
O encontro é possível, apesar de, como já disse Vinícius, ainda haja tanto desencontro pela vida.
Já cansei de tentar definir o que é arte.
Arte, pra mim, é o mundo.
Continuemos na luta então, querida!
E ganhemos o mundo!
Assinar:
Postagens (Atom)


