Eu queria que desse certo. Era como se alguma força oculta me puxasse aí pra dentro, igualzinho mar nos dias mais avessos. Perto de você eu era areia, me desfazia em grãos só pra sentir sua força dentro de mim, fazer você me conduzir pra dentro dessas águas tão arredias, viajar contigo todos os continentes, descobrir novas espécies, novas possibilidades de vida.
Às vezes me pego pensado naquele teu jeito torto de demonstrar amor. Tão ambíguo quanto desesperado.Você era duas e eu, metade. Perfeito.
Não sobrou muita coisa. Nem poderia. Não que eu me recorde, você sabe, minha memória sempre foi meio seletiva. Mas sabíamos disso. No fundo, nos machucávamos e assoprávamos ao mesmo tempo. Tudo muito consciente, claro, e com uma pitada de rasgação passional, afinal, não estamos nessa vida à passeio.
Não falo mais sobre isso. Não te escrevo mais cartas que mais tarde rasgarei. Não conto mais os dias. Não preciso mais respirar fundo até sentir um pouco de alívio naquela pontada incômoda que eu achava que era você dentro de mim, mas não era. Não fecho mais os olhos à noite imaginando um mundo no qual suas cores seriam menos carregadas e as minhas destacariam melhor meus atributos. Não grito mais teu nome pelas madrugadas nem me culpo por sair correndo na chuva desesperada e cheia de medo de te perder.
Não se perde o que nunca se teve.
3 comentários:
Perfeito!
Geniais seus textos...sou fã!
Parábens pelo blog!
Bjos
"Você era duas e eu, metade. Perfeito."
É assim que funciona.
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