quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Sobre meios sorrisos e dós sustenidos

Tropeçava pelos cantos desde que descobrira que tudo tinha uma razão por trás da razão aparente. Sentia tudo ao redor vibrar ambiguamente e assustava-se sempre ao perceber que o mundo era maior do que os portões de casa. Apegava-se com facilidade aos problemas dos outros. A princípio, por simpatia. Depois, por puro egoísmo mesmo. Afinal, o que a levava a crer que tivesse esse direito? Entrar assim na vida dos outros, vestir a resposta que valesse mais a pena. Pra quê? Mais tarde foi perceber que o que fazia - fazia era para tentar acobertar o próprio vazio.

Perdeu a conta das noites de caneta na mão. A folha em branco, de um branco assim polido e desconcertante, espelhava nada mais do que a própria brancura interior. E não bastava rabiscar meia dúzia de palavras redondas e simétricas. Colecionava várias dessas. Tinha a ver com desespero, soube, numa daquelas noites. Nada a ver com as palavras certas.

Cantava para dessentir. Desviver. Desamar. Gostava dos acordes graves, dos tons menores, das notas dissonantes. Vivia repetindo para si que as coisas bonitas eram mesmo as mais tristes. Cantava um canto assim, muito mais para si. Não achava nem mais graça. Largou os acordes num canto.

Até que deu para escrever novas músicas de novo, por causa das sensações que tanto a confundiam e ao mesmo tempo, tiravam dela as maiores demonstrações de carinho. Ternura, pôde ver, tinha mesmo muito a ver com cumplicidade. Empolgava-se com as inúmeras possibilidades de novas melodias, na poesia que sentia após uma noite inteira descobrindo novos gostos e novos jeitos de ser e sentir.

E o meio sorriso vinha todo dia agora, sem mais. Só de andar pelos lugares, que antes eram os lugares de sempre, mas que agora calavam fundo dentro dela outras impressões. Gostava dessa coisa toda. E o medo que deixara no canto ao lado do violão - esse foi-se embora, com certeza, mão no bolso, assobiando um dó sustenido.

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2 comentários:

Catarina disse...

VOlte, volte, volte logo a compor!!! Algo me diz que você anda cheia de inspiração...

Xisto, M. disse...

"E o medo que deixara no canto ao lado do violão - esse foi-se embora, com certeza, mão no bolso, assobiando um dó sustenido. E o medo que deixara no canto ao lado do violão - esse foi-se embora, com certeza, mão no bolso, assobiando um dó sustenido.

Que imagem bela...