segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Sobre meninas e cães
Estranho seria poder descrever certas coisas.
Estava esses dias sentada no ônibus. Assim, parada. Olhando pra fora, pensando em nada. Sem trilha sonora, porque ainda estou órfã de mp3 e afins! E o ônibus fez a curva. Parou no trânsito. Tem gente que não gosta de trânsito. Eu adoro. Particularmente, se é de noite. Ainda mais se está chovendo. Gosto de olhar os rostos lá fora, distorcidos pelo vidro da janela. De me distrair com as luzinhas vermelhas dos carros. O ritmo frenético das Avenidas.
Pois bem, parou o ônibus, bem ao lado do ponto. E eu, como de costume, olhei para as caras cansadas, provavelmente desgastadas por mais um dia de trabalho. Todas uniformes, condicionadas, aprosionadas. Até que me deparei, assustada, com um semblante de menina, assim, da minha idade. Cabelos claros, sorriso indecifrável. A menina segurava um violoncelo. Balancei a cabeça, olhei pros lados. Estava sozinha. Carregava uma pasta cheia de partituras, pensei. Será que gostava daquelas coisas lindas que Bach escreveu pra violino? Ou, quem sabe, como eu, preferisse as sonatas de Chopin?
Eu pensava nessas coisas, quando, de repente, ela voltou seus olhos para o chão, curiosa. Um cachorrinho, desses de rua mesmo, com aquela pinta de vira-lata pidão, encarou-a, curioso de volta. E ela, sorrateiramente, acariciou-lhe os pêlos com a ponta dos pés, no que ele, surpreendido, entregou-se, inesperado. Não estava acostumado a gestos de carinho. Acostumara-se a perder as contas dos pontapés. A relevar a água suja, as noites frias, as caixas de papelão.
Ficaram assim, em silêncio. Notei alguns olhares incrédulos das pessoas ao redor. Uma senhora de guarda-chuva vermelho até deu um passo para trás, enojada. Afinal, tratava-se de um cachorro sem dono, de rua. Não tinha nada. Mas a menina nem se importou. Pensava em como sempre quis ter um cãozinho assim, como esse. Pra poder repartir algumas confidências, revelar aquela parte dela que não conseguia sair dali de dentro por nada. Acariciava-o como se acarinhasse a si mesma. E o cachorro, agradecido, fechava os olhos, ofegante e feliz da vida. Tinham se encontrado.
O sinal verde se fez presente, meu ônibus seguiu viagem. E eu, após alguns minutos ainda com aquele meio sorriso de pensar na sensibilidade da menina, suspirei, cogitando o inevitável. Quanto tempo ainda teriam permanecido assim, unidos? O que sentiria o cão ao ver a menina partir? Sentiria-se mal, com certeza. Não teria sido melhor pra ele continuar seu rastro de movimentos calculados, sem esperar nada de ninguém?
Mas querem mesmo saber?
Fui dormir feliz.
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